23/11/2009

A insuportável liberdade do amor

Euclides da Cunha foi um de nossos maiores intelectuais, por sua coragem de pensar. Quando soube da revolta de Canudos, atribuiu-a aos monarquistas. No sertão da Bahia, percebeu que estava errado. Sua coragem de rever o erro valoriza sua obra-prima, Os Sertões. Mas não teve essa grandeza em sua vida pessoal. Casou-se com a filha de um líder republicano. O casamento, porém, não foi feliz. Ele não deu à jovem Ana o amor que ela queria. Ela se envolveu com o tenente Dilermando de Assis. Sabe-se o final da história. Em agosto de 1909, Ana deixa o marido pela última vez. Euclides invade a casa de Dilermando, gritando que vem matar ou morrer. É morto. Dilermando é absolvido.
Por que evocar essa história - que mostra como um grande intelectual foi tão infeliz em sua vida amorosa - quando o assunto da semana é o pai que se matou com o filho pequeno, ao não suportar o fim do casamento? Porque não é a classe social, a formação cultural ou a abertura de espírito para a ciência que capacitam alguém a lidar com o que é difícil no amor, em especial a rejeição.
A tragédia recente é de um pai que não aguenta viver sem a mulher. É imperdoável ele ter matado o filho, ato cruel e odioso. Mas seu suicídio, como o filicídio, decorrem da dificuldade de aceitar a liberdade no amor, no caso, o direito da mulher a seguir seu rumo.
A liberdade no amor não é fácil. Quando concebi um programa a respeito para a TV Futura (que pode ser baixado em www.futuratec.org.br), alguém me sugeriu tratar de casamentos abertos. Recusei. Nada tenho contra quem é feliz numa relação permanente com eventuais casos paralelos. Mas liberdade no amor não é fazer exceções à relação principal. Liberdade no amor é estar livre no (e não do) casamento. É uma realização com o outro.
Comecemos pela falta de liberdade no amor, que existe quando não se consegue tratar do que é mais íntimo. Se tenho uma companheira, espera-se que seja a pessoa mais próxima de mim no mundo, e que tenhamos uma aliança, uma cumplicidade. Se não, é porque algo vai mal. Se não conseguirmos conversar a respeito, piora.
Conversar é uma arte conquistada. Há duas formas de conversa. Uma se desenvolveu na Europa do século 17. É a conversa em sociedade, até mesmo superficial, mas que é condição para o encontro com estranhos ser agradável e a vida social, um prazer. Mas há outra conversa, que é a íntima. Ela inclui assuntos penosos. Um casal pode passar por problemas sexuais, como a redução ou perda do desejo pelo outro. Abordar esse tema é árduo, mas geralmente é melhor fazê-lo antes que um dos parceiros procure uma terceira pessoa.
O que agrava as coisas é que, hoje, toma-se por sinceridade o que é só agressividade. Alguns acham que "dizer o que vem à cabeça" é o mesmo que abrir o coração. Não é. Com frequência, a primeira resposta a algo difícil é a reação agressiva de quem deseja livrar-se de uma situação incômoda. Ofender o outro não é ser sincero. É, apenas, ofender.
Que maturidade é preciso para viver a liberdade no amor? Gilberto Gil, ironizando o slogan da ditadura "Brasil, ame-o ou deixe-o", recomendava: "O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre para amar./O seu amor/Ame-o e deixe-o/Ir aonde quiser". Significa aceitar que uma relação de amor é uma relação de certo risco. Não sabemos se e quando pode terminar. Por isso, é preciso investir nela, e o investimento é afetivo. Por isso Euclides, inteligente e corajoso, não foi o marido adequado para uma mulher que queria um homem alegre, o que ele não era.
O espantoso não é que Euclides, quando não havia divórcio no Brasil e o preconceito era fortíssimo, escolhesse ser assassinado com tanta vida pela frente (pois sabia que Dilermando era bom atirador). O espantoso é que tragédias dessas continuem acontecendo, quando a separação se tornou quase banal, afetando boa parte dos casamentos no mundo.
Talvez haja aqui algo bem difícil. Uma das maiores realizações que se espera da vida é o encontro de um amor de verdade, intenso, pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão - do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida - não é boa juíza de caráter ou de relações, como tem frisado Flavio Gikovate. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu "eixo") sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que "foram felizes para sempre" só é possível com o amor, não com o fulgor passional.

RENATO JANINE RIBEIRO no Estadão

22/11/2009

Valha-me Deus !

É muito inquietante não acreditar em nada. Ninguém passa pela vida sem se perguntar qual é o sentido de tudo isto. Não existir respostas é o que torna tudo muito interessante. De certo mesmo, só o fato de que quando as coisas dão errado e a ajuda não pode vir dos amigos, buscamos consolo numa idéia e é a esta idéia que chamamos de Deus. Toda esta reflexão, assim em pleno domingo pela manhã, vem a propósito da leitura de um livrinho que encontrei ontem, no banco de trás do carro de um amigo que me deu carona: EXPLICANDO DEUS NUMA CORRIDA DE TAXI. Seu autor, Paul Arden é uma marca, uma lenda da publicidade britânica.
Ainda que zilhões de livros tenham sido escritos na busca da compreensão de Deus ninguém tinha esclarecido nada, até esta versão que pode ser lida enquanto o taxímetro está rodando. Simples assim...Vai para onde?

No brinde ao 20.11













Se for importante saber 'onde' clique no título.

Como é difícil ser feliz

"POR MAIS louco que pareça, é difícil suportar a felicidade. Você conhece alguém feliz? Nem eu, e os poucos que têm tudo para serem felizes ficam inventando modas para complicar a vida.
Ter uma vida familiar satisfatória, sem nenhum daqueles problemas graves que existem em quase todas as famílias, já é raro. Além desse aspecto, ainda existem as relações entre os parentes, que na maioria das vezes costumam ser explosivas, para dizer o mínimo. Sogras odeiam noras -e vice-versa-, irmãs querem esfaquear as cunhadas, e levante as mãos para os céus se na sua família nunca existiu quem se engraçasse com quem não devia.
Se do lado familiar está tudo bem, o que já é raro, vamos ao profissional. Suponhamos que você, depois de muita luta, tenha conseguido chegar ao ponto que queria: bem de grana e prestígio na praça, o que não é pouco. Mas ainda falta o lado sentimental; como vai ele?
Por incrível que pareça, esse também vai bem. Encontrou a pessoa certa -quase certa, a bem dizer-, com quem os filhos se dão bem, a quem os amigos não torcem o nariz e até a família, que não deixa passar nada, aceita.
Além disso, está morando numa casa legal, tem o carro do ano, pode viajar mais ou menos para onde quer mais ou menos quando quer, e o resultado do último check up não poderia ter sido melhor. E mais: modéstia à parte, o visual não deixa a desejar, muito pelo contrário, e as mulheres estão chovendo na sua horta. Não são razões de sobra para estar feliz? São, e até demais. Então é hora de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade.
Um dos recursos mais usados é o medo. Ah, se ela me deixar; ah, se eu ficar doente; ah, se minha mãe morrer; ah, se eu perder o emprego; ah, se um incêndio queimar a minha casa; ah, se eu perder a inteligência e não puder mais trabalhar; ah, se a inflação voltar e não der para pagar as prestações do apartamento; ah, se o avião que vai me levar para fazer a mais maravilhosa de todas as viagens cair -e por aí vai.
As poucas pessoa felizes -e por isso são felizes- não têm medo de nada e nunca acham que a vida vai piorar, muito pelo contrário. Mas os que estão com a vida boa encontram sempre uma maneira de achar um drama em tudo. As mulheres são especialistas nisso: se está tudo bem, elas lembram daquele dia, oito anos atrás, em que o marido bebeu demais e ficou fazendo charme para uma mulher. Daí para uma grande cena de ciúmes é um passo -ah, como nós podemos ser insuportáveis às vezes. E o pior: essa crise pode durar dias.
Se não é por aí, então quem sabe no trabalho? Como está tudo meio burocrático demais, fica pensando em como seria bom que fosse mandado para longe por uns tempos; até Brasília seria uma boa, só para mudar de ares e de função. Mas pensa na praia, na maravilha que é morar no Rio, e abandona a ideia antes que seja tarde. Mas, como não há nada mais monótono do que a felicidade, é preciso arranjar pelo menos um problema, um pequeno problema, para que a vida fique mais interessante, e isso é simples.
Basta pensar: e se sua felicidade acabar?
"
Danuza Leão

20/11/2009

A MORTE DO GOURMET

“Na intersecção da crosta com o miolo em compensação, é um moinho que toma forma diante de nosso olhar interior,a poeira do trigo voa em torno da mó, o ar infestado pelo pó volátil, e nova mudança de quadro, pois o palato acabou de esposar a espuma alveolada libertada de sua carga e o trabalho dos maxilares pode começar. É mesmo um pão.”

Neste que foi seu livro de estréia Muriel Barbery (A Elegância do Ouriço - sobre a vida dos moradores de um condomínio chique de Paris vista pela concierge-filósofa foi o segundo) analisa o valor e a verdade dos afetos gastronômicos. A Morte do Gourmet é uma história ambientada no mesmo condomínio parisiense e gira em torno de um de seus moradores. Pierre Arthens,o mais temido crítico de gastronomia de Paris, poderoso, inteligente e arrogante ( ‘decide’ o destino dos restaurantes) está à beira da morte e , fiel às suas obsessões, tenta relembrar o sabor que seria o instrumento de sua libertação, mas que foi perdido no tempo. Algo que provou, de um sabor particular que não lembra o que é.
Sua biografia vai sendo tecida em curtos capítulos escritos por amigos, amantes, famíliares e apreciadores de comida. Em que pese já haver sido premiado na área de gastronomia, o livro não trata apenas dos sabores degustados, mas dos sabores vividos, dos gostos que marcam nossa lembrança. A mobilização de sentidos, não só de quem cozinha, mas também de quem degusta.(“...degustar é um ato de prazer, e descrever esse prazer é um fato artístico, mas, a única verdadeira obra de arte, definitivamente, é o festim do outro”).
Há quem considere haver a autora aproveitado o espaço para lançar mão da tese de que a comida seria a principal arma de sedução das mulheres. Preparar o alimento com o coração, empreendendo num prato um grau de emoção difícil de ver numa cozinha profissional, seria a forma de prender seus homens "não pelos cordões da administração doméstica, pelos filhos, pela respeitabilidade ou mesmo pela cama - mas pelas papilas".
De enredo curioso, não é imperdível.

18/11/2009

Como dizia o Poeta

Nicolau

"Nicolau era o papagaio de minha avó. Naquele tempo, além dos agregados familiares que moravam e trabalhavam na casa, só saindo quando se casavam, ainda se criavam muitos bichos; soins, gatos, cachorros, e não faltava um papagaio que comia os restos de miolos de pão com café que sobravam na mesa. Assim era na casa da minha avó. Viviam com muita simplicidade, mas a população de agregados e bichos parecia não pesar no orçamento familiar.
Nicolau era especial. Com seu olhar redondo e vidrado, pés virados para dentro, emprestava até seu nome para o apelido de quem andava meio cambota. Cantava o dia todo.
ó preta ó preeta, lá do sertãââo, jogando as cartas, no meio do chão. O resto da canção Maria lhe ensinava cantando, mas ele nunca aprendia a ir até o fim. Vivia numa arandela de flandre pendurada lá em cima da parede da cozinha. Dali, sempre cambaleando, vislumbrava todo o movimento da casa. Se alguém aparecia, ele ia logo ironizando antecipadamente a atenção que lhe dariam: "dê cá o pé, meu louro", falava. Pela manhã irritava a todos porque acordava cedo e ficava repetindo as mesmas palavras: Maria, quero café, café, café!, enquanto Maria ainda fazia o fogo. Durante o dia, Nicolau tinha vários momentos de exaltação discursiva, mas os matutinos e vespertinos eram inevitáveis. Todo o repertório de palavras, canções e ruídos que aprendera na floresta eram repetidos ininterruptamente por horas a fio, até ele se acalmar.
Os netos de minha avó gostavam muito de Nicolau, que quando nos via passando pela cozinha ia logo dizendo: camone boy! Tinha aprendido a expressão conosco, que víamos os filmes de cowboys e aprendêramos a cumprimentar as pessoas com essas palavras, as únicas que entendíamos da película. Como casa de avó era para se fazer tudo que não se fazia na casa dos pais, já entrávamos correndo, passando por dentro dos quartos e salas, atravessando a cozinha, só parando no quintal. Ali costumávamos reinterpretar as cenas dos filmes a que assistíamos. Nos dividíamos entre bandidos e mocinhos, cada um com um graveto de pau que funcionava como revólver. Nos escondíamos todos e, como faziam os mocinhos, repetíamos seus gestos de colocar só uma pequena parte da cabeça de fora do esconderijo para enxergar o inimigo, atirar e depois nos encolhermos novamente. Aí entrava toda sorte de sons que ouvíamos no cinema e que podiam reconstruir a atmosfera daquelas cenas no deserto do Arizona. Havia momentos de barulheira total dentro de casa, quando resolvíamos reinventar as batalhas entre índios e brancos, gritando como os índios e correndo como cavalos desde o quintal até a porta da rua. Hoje, quando me lembro, parece que minha avó e o resto da família tinham uma espécie de botão que desligavam para não ver nem ouvir tal algazarra na casa. Ninguém saía de suas funções, ninguém reclamava do barulho ou mesmo da sujeira que fazíamos por lá! Era como se cada grupo vivesse seus fantasmas sem que o outro interferisse. Mas um dia Nicolau pregou uma peça nos netos da velha, acabando assim com aquela invasão de bárbaros em seu território. Certa hora, quando estávamos mais absortos na nossa encenação de bandido e mocinho, ouvimos uma voz que passou a nos denunciar seja lá onde estivéssemos: BUÁ TILLLL. Era Nicolau que tinha aprendido a, como nós, imitar o som das balas dos mocinhos e bandidos, ricocheteando nas pedras do deserto. Assim, onde pudéssemos nos esconder ele estaria a falar BUÁ TILLL, entregando ao grupo inimigo nossos esconderijos.
Pobre Nicoláu! Acabou seus dias de forma trágica!
Quando meu avô morreu, a comoção da família foi intensa. Um mês de cama e mais seis dias em coma e o velho por fim se foi. Só se ouviam os lamentos dos filhos: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Luto absoluto por um ano, falavam pra costureira que faria os vestidos de toda a família. Só os netos usariam três meses de luto fechado e o resto do ano aliviado, decidindo nossos destinos baseados numa tradição que eu tomava conhecimento pela primeira vez. Em casa, parecia tudo vazio, A vida estava suspensa. Só funcionavam Maria, que apesar do seu luto cozinhava todas as roupas da família na tinta preta para que outras cores não entrassem naquele tempo, e as reuniões dos membros do clã para relembrar afetos e emoções do tempo em que o velho era vivo. Me lembro dessas intermináveis reuniões em torno da mesa, onde aos poucos a memória do velho ia sendo purificada e enriquecida. Na hora das refeições, todos comiam calados. Nem Nicolau perturbava. De repente um dos membros da família ficava parado. Se estivesse comendo, o talher parava onde estava, a respiração não se efetuava e a cabeça ficava baixa. O tempo se abria para se ouvir o som do seu choro alto e convulsivo. Aquilo era para mim um ritual novo, que eu nunca tinha presenciado. Sabia que meu avô tinha morrido, mas não sabia que o luto seria sentido e até provocado através de rituais. Nem que o do meu avô levaria tanto tempo e de forma tão trágica e grave. A casa ficou triste feito um prato de macarrão na água e no sal. Feito vestido velho e desbotado. O peso da morte foi tão grande que até as brincadeiras não tinham como se realizarem. Olhávamos uns para os outros e nada engatava, tão impotentes que estávamos para manifestarmos qualquer forma de vitalidade. Só se ouviam os lamentos que ecoavam dentro de casa: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Assim foi durante muitos dias; e as crianças, sem se darem conta, foram envolvidas no mesmo resguardo que o tempo exigiu.
As emoções da família só começaram a reaparecer, voltando ao rebuliço habitual, no dia em que fui entrando na casa e percebi um grande alvoroço que entrava pela cozinha e saia pelo quintal. Era minha mãe, com um cabo de vassoura, que corria bravejando atrás de Nicolau, que tentava se defender gritando: Ai! Papai Morreu! UHHHHHHHHH! Papai Morreu!UHHHHHHHHH! Coitado do Nicolau! Não acredito que estivesse fazendo pouco dos exageros emocionais da família, como acreditou minha mãe. Para mim ele estava também de luto. Ou numa compreensão menos dramática, ele estava no mínimo feliz por ter acrescentado mais algumas palavras ao seu repertório.
Nunca mais ouvimos falar de Nicolau!"
Mércia Pinto/2009

Ballets Trockadero

17/11/2009

O Sentido do Gosto

"À volta da mesa sempre se fez História e à volta de cada alimento existem mil histórias para contar".
Esta receitinha é apenas o pretexto para trazer O Sentido do Gosto para cá. Programa de televisão da RTP que consegue juntar, de uma maneira que seduz e educa, temas de história da alimentação e culinária. Já virou livro, DVD, etc. A propósito de vários alimentos, as imagens desta campanha que nos desperta tantas vontades...desde ler o resto das histórias até partir para o surpreendente e inesgotável Portugal!(o 'sítio' clicando no título)

16/11/2009

As razões do sexo

"A CARA leitora já sabe que não sou um apreciador do feminismo. Acho-o excessivo, mas não desnecessário. Sim, existem dimensões da sociedade que pedem um combate contra maus hábitos. É um absurdo, por exemplo, mulheres ganharem menor salário pela mesma função, serem obrigadas a viver com canalhas ou terem os estudos e a vida profissional negados.
Mas, nos últimos anos, o feminismo tem prestado um grande desserviço às mulheres, estimulando nelas ressentimento e solidão, e levando-as a enganos, como, por exemplo, afirmando coisas irreais como a não importância da maternidade para a maioria esmagadora das mulheres.
No campo dos afetos e das relações, a ideologização maníaca de tudo por parte das feministas só atrapalha a já difícil vida a dois. Essa mania se traduz na ideia de que, em toda parte, tudo seja poder e opressão. A vida sexual tem razões que a própria razão desconhece.
Deve mesmo ser um saco ter que aturar chatos que se acham no direito de invadir sua privacidade com convites idiotas. Mas, afinal, como saber quando você é ou não um idiota? Não é tão óbvio assim, porque, quando estamos interessados numa mulher, sempre ficamos um tanto idiotas. Pela sua beleza, por seu charme, seu mistério e, acima de tudo, suas pernas.
Uma prova dos excessos do feminismo são movimentos políticos que beiram a afirmação de que uma mulher plenamente emancipada tem que ser homossexual. Tudo bem, "cada um é cada um", mas essa pregação é uma coisa de ressentida mesmo.
Uma das coisas que me fascina nas mulheres é o fato de que não as entendo. Nessa "maldição" da diferença partilhada reside o exercício contínuo da transcendência que marca a condição heterossexual.
Amigas minhas de bem com a vida e sem ressentimentos não perdem um minuto de suas vidas com esse rancor feminista. Falo daquele tipo de mulher que sabe que um homem que gosta de mulheres vive constantemente sob o poder do desejo feminino. O melhor argumento a favor da emancipação feminina, do ponto de vista masculino, é ter mulheres como colegas de trabalho. Tudo fica melhor, mais leve, mais encantador.
Recentemente ouvi dizer que, numa feira de livros em algum Estado do Brasil, fizeram marcadores de livros, totens e camisetas com a imagem de uma mulher com as pernas para o ar, com meia-calça (espero que com sandálias de salto alto), e um texto que dizia algo assim: "Aqui tem sempre uma emoção esperando você".
Para um apreciador do sexo feminino, a imagem é perfeita. Entre as pernas de uma mulher suspensas no ar, apenas boas emoções nos esperam. Por exemplo, ser recebido por moças bonitas em feiras melhora o dia e nos faz pensar, por breves minutos, que a vida sim faz sentido. A voz, a silhueta, o cheiro, cada gesto do corpo parecem indicar a evidência de que os criacionistas têm razão: o acaso cego não saberia fazer tamanha maravilha viva. Num bar, depois de algumas cervejas, essa é uma prova cabal da existência de Deus. E mais: um erro comum é supor que os homens só se interessam pelo corpo das mulheres. Não, o corpo deve vir acompanhado de acessórios indispensáveis: a alma, as ideias, a conversa, a roupa.
Também sei que muitas dessas minhas amigas de bem com a vida riem da ira contra coisas assim. Elas pensam que uma ação de marketing como essa pode até ser interessante na medida em que facilita a conversa, dando a "deixa" necessária para uma noite divertida, após um dia "boring" (entediante) nesse tipo de evento.
Erra quem supõe que a erotização deva ser banida da vida profissional. Em determinados locais de trabalho, um certo grau de erotização contribui para a produtividade, dando uma "cor" ao cotidiano, que sempre tende ao preto e branco.
Sim, minha cara leitora, quando homens falam de mulheres a sério, o fazem sempre pensando em vocês como objeto. O mesmo acontece quando são mulheres conversando entre si: somos nós o objeto. Ainda bem. E por que seria diferente?
Mas devo confessar que reconheço o risco de falta de educação quando, em eventos de trabalho, imagens de mulheres são utilizadas de modo ostensivo. Lembro-me de uma vez, em outro Estado, quando, numa palestra, o conferencista terminou com a imagem virtual de uma mulher nua, inclinada sobre uma pia, fazendo movimentos insinuantes. Achei isso o fim da picada. Do meu lado, estava uma colega de trabalho. Pedi desculpa a ela por tamanha estupidez".

LUIZ FELIPE PONDÉ

Bilhete de Identidade

A vida da gente só parece vazia e desinteressante até o momento em que viajamos através da memória buscando contar uma história a nosso respeito. Ser ao mesmo tempo ator e expectador de nós mesmos, não é tarefa das mais fáceis. Como atores, agimos e sofremos, enquanto que, ao nos ver, somos tentados a 'compreender' , a ser auto-condescendentes, justificando as razões de nossos gestos e palavras. Tendemos a fazer com que a verdade passe a ser a nossa verdade. Porém, ser expectador e narrador de nós mesmos é o único caminho para se conseguir dar um passo além, nos tornando autor de nossa história. Não se trata de simplesmente narrar episódios vividos, mas de narrar nossa existência buscando nela o fio que liga nossas vivências e lhes dá sentido. (Ops! Isto não é uma introdução à minha autobiografia).
Tenho um lado meio de voyeur que gosta muito de (auto) biografias. Nelas não vejo apenas bisbilhotices. Considero que , ao ler (ou ouvir) sobre a vida dos outros, aprendemos como pode ser a existência, como arranjar a vida ante a velhice, o desamor, a morte dos outros e a nossa. Conhecendo a vida dos biografados, suas aventuras e desventuras, deduzimos o que nos espera.
Como diz a Dulce Critelli (terapeuta existencial que 'frequenta' este blog) : “Os anos vão nos fazendo e também nos desfazendo. Surgem perguntas sobre o que serei amanhã? O que terei feito de mim? A “navegação” da própria existência é cheia de riscos.... Num mundo cuja essência aleatória é cada vez mais evidente, quando não mais nos esperam nem o céu nem o inferno e nem existem ideologias nem religiões para ordenar convenientemente o caos, em meio a tanto vazio, a vida dos outros muitas vezes nos mostra o caminho.”
Todo este blablabla é para dizer que ando lendo o BILHETE DE IDENTIDADE, de autoria da portuguesa Maria Filomena Mónica, que traz um subtítulo Memórias 1943-1976. Bilhete de identidade é como se chama o documento nacional de identificação civil em Portugal. A memória seria como o bilhete de identidade do indivíduo, pessoal e intransmissível e a curiosidade surge precisamente com base nessa pessoalidade.
A propósito do lançamento do livro, no Diário de Notícias de 13 de Novembro de 2005 o comentário de João Céu e Silva: “...Nesse retrato que faz de si própria ao longo dos 33 primeiros anos de vida, Maria Filomena Mónica acaba por o transformar num retrato sociológico - e antológico - de uma geração que ainda hoje está no poder, ou por perto, exibindo a sua vida como um filme de muitas horas, que se vê sem doer o rabo.”
Não dói mesmo. É uma delícia!
Pensamento do dia: ainda que algumas vidas nos pareçam bem mais ricas e glamourosas do que a nossa, composta de miudezas e insignificâncias, o consolo é que tudo acaba igual!

15/11/2009

13 de novembro de 1982

No último dia 13, antes de ontem, montei um slide show com imagens de mães, 'na arte e na vida'. Não sei se alguém viu. Nem se vendo percebeu algum significado. Creio que não . Como quer que tenha sido, agora ficam sabendo: naquele dia eu estava fazendo aniversário. Comemorava o dia em que me tornei mãe. Esta trajetória biológica, social, psicológica ou tudo isto junto, que nos leva a, num dado momento, pensar em ter filho, pode parecer, para alguns, meio banal. Afinal, o ato de procriar acontece com uma certa frequência no reino animal. Porém, ser mãe não é a mesma coisa que, simplesmente, ter um filho. Ser mãe é uma experiência transformadora. Nenhuma mulher que é mãe continua a mesma. Vi esta transformação não só em mim. É claro que, dentre as mulheres, sempre há aquelas para quem um bebê vem completar a mobília doméstica. São as que casaram porque ' estava no tempo', porque fica mais difícil depois dos 30 ou porque as amigas da faculdade já casaram, enfim...Essas têm filhos. Não foi o meu caso, pois quis ser mãe acima de qualquer coisa. E foi assim que me tornei uma pessoa melhor.
Quando minha filha ainda era um 'pacote' no berço, com aquela carinha indecifrável de joelho, descobri em mim uma energia e uma generosidade que deviam estar bem escondidas até ela nascer . Por outro lado, a maternidade me fez mortal e atenta. Passei a temer por tudo que me pudesse acontecer, enquanto ela não pudesse sobreviver sozinha .Busquei, incansavelmente, a coerência entre idéias e atitudes, a medida certa para o equilíbrio entre o ' bater e o assoprar', permitir e negar, prender e soltar. Fiz por onde manter os fios da amizade e da confiança sempre a nos ligar, a fim de que pudessem ser puxados se, ou quando, fosse necessário.
Queria explicar-lhe o mundo e poupá-la de aprender ' quebrando a cara' . Isto a que chamam de 'experiência própria' não queria para ela. Quando me perdia, tinha dúvida ou me desesperava, dizia para ela:' me desculpe mas estive num curso de preparação para fazer tudo que fiz ou faço, mas para ser mãe não tem curso, nem você veio com manual de instrução...posso estar cometendo os piores erros, mas não sei de outro jeito.'
Claro que ela não sabia de que eu falava, como não entendia outras tantas coisa que comecei a explicar para ela ' antes da hora' (na dúvida quanto a hora, tinha medo de me atrasar) . Lembro que a partir de um momento, não sei qual, comecei a fazer com que ela tivesse consciência de que, sendo mulher, ia ter que ser muito boa em qualquer coisa que resolvesse fazer, mas ia ter que provar isto todo dia. Falei-lhe do leão que ia ter que ser morto, enquanto os seus pares, do sexo masculino, talvez se permitissem até ser medíocres....
Quando afirmo que a maternidade é transformadora é também por nos levar a cometer estes disparates, na vontade de acertar e de proteger a cria.
Foram tantas as coisaas que aprendi por ser mãe que fico pensando no quanto esta dívida é impagável. Por mais que a encha de beijos e totinhas....

A apoteose do sublime


Pierre et Gilles, na verdade, Pierre Commoy (fotógrafo) e Gilles Blanchard (pintor) se conheceram, nos anos 70, numa festa na casa do Kenzo. Juntos na arte e na vida, desde então, criaram as bases para o surgimento do que se entende por estética homoerótica nas artes visuais.
No trabalho dêles há espaço para tudo. Da cultura pop aos excessos histriônicos de David LaChapelle, existe um substrato de arte séria, o brilho industrial de Jeff Koons, cartuns que vazam testosterona de Tom of Finland, a base pop de Warhol e, da literatura, os marinheiros, safados e sofridos de Jean Genet.
É uma das últimas exposições programadas para o evento 'Ano da França no Brasil'.
No Rio no Oi FUTURO

Berço e criação

"Saí do berço ouvindo que quem herda não furta. Pode-se entender o provérbio em sentido jurídico, mas o contexto sempre apontava outra coisa: não é crime parecer-se com alguém. Algo como, para ficar nos provérbios, "quem puxa aos seus não degenera".
A biologia é obcecada com o sentido desse verbo, "herdar". Debate-se há séculos quanto de nossas disposições gerais, em especial de temperamento, são "causadas" por fatores herdados. Para muita gente, isso significa deixar de ter responsabilidade pelo que são, e até pelo que fazem.
A partir do século 20, o problema foi enquadrado na moldura dos genes. Começou-se a falar em genética do comportamento, da violência, da orientação sexual etc. Assim como o escorpião da fábula explicou ao sapo que ferroá-lo estava em sua natureza, há quem acredite safar-se alegando: "Está no meu DNA".
É a velha questão "nature X nurture", que traduzo livremente do inglês como berço X criação. A genética, turbinada pelo Projeto Genoma Humano, teria resolvido o dilema em favor do primeiro termo. Até os anos 1980, houve certo predomínio da psicologia (ambiente, ou criação), logo substituída por explicações "mais científicas", genéticas (natureza, ou berço).
Esse determinismo genético saiu de moda há anos, na intimidade do meio científico, mas tem apelo irresistível no público e é tolerado por pesquisadores. Caiu em desuso técnico porque é falacioso. Seu defeito está em confundir "genético" com "hereditário" ou "inato", pois nem tudo que afeta os genes ocorre antes do nascimento.
Mais um estudo que põe essa dicotomia em xeque foi publicado eletronicamente pelo periódico científico "Nature Neuroscience" na semana passada. Chris Murgatroyd, pesquisador do Instituto Max Planck de Psiquiatria, de Munique, mostrou que experiências traumatizantes na primeira infância podem deixar marcas duradouras na fisiologia e no comportamento que nada têm a ver com o conteúdo dos genes, mas sim com a expressão desse conteúdo.
É o que se chama de epigenética, anotações que a experiência vivida deixa no genoma. Elas sinalizam quais genes do acervo de mais de 20 mil podem e devem ser usados em cada circunstância. O grupo de Murgatroyd investigou em camundongos o efeito de estresse em filhotes separados da mãe três horas por dia nos primeiros dez dias de vida.
A equipe descobriu que, já adultos, os roedores estressados quando filhotes tinham níveis elevados de um hormônio, a vasopressina, associado com o humor e, em humanos, com a química da depressão. Viu, ainda, que esse aumento decorre de marcas indeléveis deixadas no DNA. É óbvio que o mecanismo pode não ser o mesmo em seres humanos, mas é difícil de acreditar que não haja coisas similares agindo dentro de nós. Somos o resultado não só do que está em nossos genes, mas também do que se superpõe a eles. Nem berço nem criação, mas berço-e-criação.
Essa visão menos determinista nos convida a investigar, ponderar e influir tanto no que está no DNA quanto no modo como criamos nossos filhos e jovens e como tratamos a nós próprios. Como já foi dito, somos o que fizermos do que fizeram de nós. Incrível: descobri no Google que o imortal Walter Franco tem uma música intitulada "Quem Puxa aos Seus Não Degenera". Nela se encontra a seguinte estrofe, que talvez nos inspire a ser mais tolerantes com as feras criadas por aí: "Daí meu pai disse / Meu filho, espera / A inocência que há / No olhar da fera"."

MARCELO LEITE